Mensagem MCIC dia da lingua materna

“Classificar a língua cabo-verdiana a património nacional é reconhece-la como o maior legado deixado pelo nosso percurso colectivo como nação” – MCIC, Abraão Vicente

Cabo Verde é fruto e reflexo da diversidade e do multilinguismo. Diversidade no sotaque, nas palavras, no significado que pula de ilha em ilha maravilhando docilmente os nossos ouvidos, manifestando a essência do ser crioulo.

Hoje, 21 de fevereiro, celebra-se um pouco por todo mundo a língua materna, na sua forma e essência. Este ano data é comemorada sob o lema “A diversidade linguística e multilinguismo são importantes para o desenvolvimento sustentável”.

Instituída pela UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, em 1999, celebrar o Dia Internacional da Língua Materna tem como objetivo salvaguardar, promover as línguas faladas pelos povos em todo o mundo.

Valorizar a língua cabo-verdiana, nas suas diferentes variedades, de onde reside a sua riqueza, é promover a diversidade cultural do povo cabo-verdiano. Mais ainda, porque a nossa língua materna não é apenas um meio de comunicação. É, e tem sido, o meio de transmissão da identidade cultural cabo-verdiana ao longo dos tempos.

Este é, e deve ser, o papel das línguas maternas. E o apelo da UNESCO é para a promoção das línguas maternas em todo o mundo, pois só a preservação e promoção delas permite valorizar a multiculturalidade.

Em Cabo Verde, o Governo através do Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas e dos vários organismos estatais, com competência na matéria, tem trabalhado afincadamente na criação das bases para um debate mais forte sobre a oficialização da língua cabo-verdiana, com base científica.

Este desiderato passa, contudo, por um reconhecimento da língua materna, enquanto principal traço identitário nacional. Um reconhecimento, primeiro, via classificação a património nacional.

Classificar a língua cabo-verdiana a património nacional é reconhece-la como o maior legado deixado pelo nosso percurso colectivo como nação. É valorizar a identidade que iniciou o seu traçar na Ribeira Grande de Santiago, mais precisamente na Cidade Velha, a quando da descoberta deste arquipélago.

Reconhecendo a língua cabo-verdiana como património imaterial nacional, o Estado de Cabo Verde estará em condições para prosseguir com a sua oficialização através da Constituição da República e, por fim, avançar com a padronização.

A língua cabo-verdiana é, sem dúvida, um dos maiores patrimónios criados pelo povo cabo-verdiano. Une e identifica o povo. É a língua da saudade, a língua da nossa morabeza. É por isso que, para este Governo, a oficialização da língua cabo-verdiana está na linha da frente, de modo que na próxima revisão constitucional seja debatida e reconhecida como língua oficial de Cabo Verde.

Contudo, o processo do uso da língua na modalidade escrita, isto é, a padronização, é moroso e pode levar duas ou três gerações para que ela passe a ser assumida naturalmente pela sociedade. Foi assim com outras línguas.

Entretanto, o Governo pretende criar as condições necessárias para que seja ensinado e escrito em todo o território nacional. Já se iniciou o processo, de valorização no seio estudantil, num trabalho minucioso de valorização da “nossa língua mãe”, através do programa claro e concreto de educação patrimonial.

Está em elaboração o plano estratégico de educação patrimonial, fundeada na valorização da língua materna num projecto a medio longo prazo.

Agora, mais do que nunca, prepara-se todos os meios para elevar, formalmente, a língua cabo-verdiana à dignidade e igualdade estatutária que ela merece. Um estatuto ansiado há muito pelos detentores deste conhecimento linguístico, o estatuto de património cultural imaterial nacional. 
O que pressupõe, naturalmente, a constituição de uma equipa multidisciplinar para trabalhar o referido dossier. Uma equipa composta por antropólogos, historiadores e gestores de património, que de entre as várias missões, terão a missão de realizar a inventariação da língua cabo-verdiana, projeto de valorização e salvaguarda de sua identidade e autenticidade.

A classificação da língua cabo-verdiana como património nacional passará pelos fatores “união do povo cabo-verdiano”, tanto no país como na diáspora e “elo” de Cabo Verde com o mundo, através da história, cultura e da música, enquanto reconhecimento do valor cultural da língua e produto cultural partilhado por todos os cabo-verdianos, ou seja, o património maior desta nação. 
A Constituição da República de Cabo Verde ressalva que o Estado deva promover as condições para a oficialização da língua materna, em paridade com a língua oficial, no caso o português.

Isto para ressaltar que falar da valorização da língua materna, não implica dissocia-la da língua oficial, e nem da sua importância e contexto de utilização. Muito pelo contrário, é de exaltar os projetos que incentivam e valorizam o ensino bilingue.

Um caminho já iniciado, no país, há cerca de cinco anos. O ensino formal bilingue - língua cabo-verdiana e língua portuguesa, e cujos alunos têm demostrado grande domínio no uso da língua cabo-verdiana (oral e escrita) bem como do português.

A nossa meta é que haja classificação imediata da língua cabo-verdiana como património nacional e pretendemos que seja cumprida ainda no decorrer desta legislatura.

A classificação reconhece o valor cultural da língua enquanto produto/ património cultural partilhado por todos os cabo-verdianos, ou seja, o património maior desta nação. A legalização permite o uso da língua e o direito de usá-la.

Celebremos esse direito, nos dado pela nossa língua “mãe”. Celebremos a diversidade de uma nação multilingue, celebremos de Santo Antão à Brava. A língua traduzida no Batuco, Talaia Baxu, Finason, na Morna e coladeira. Celebremos a pureza da identidade Cabo-Verdiana.

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