Enfermaria

Enfermaria

Uma das marcas principais do Campo de Concentração do Tarrafal foi, sem dúvida, a falta de assistência médica, aos presos ali encarcerados.

Se no início do funcionamento da Colónia Penal, o Diretor não atendia às súplicas dos presos que adoeciam, alegando falta de verbas para dietas e medicamentos, tal situação não se inverteu, chegando mesmo a piorar, quando em fevereiro de 1937, o médico Esmeraldo Pais da Prata chegou, com o principal objetivo de verificar que os presos não fingiam de doentes, para escusarem ao trabalho.

Deste modo, a assistência médica de índole criminosa do médico alocado para os serviços do campo, espelha as verdadeiras intenções por parte do regime salazarista, em eliminar uns quantos opositores políticos.

 Assim, as ações do «Tralheira» como era apelidado pelos presos, contribuíram bastante para o agravamento das condições de sobrevivência dos presos – recusando mandar ferver a água insalubre vinda da fonte a uns 700 metros, aprovando o estado de deterioração das magras rações distribuídas aos presos, dando cobertura aos trabalhos forçados e aos castigos na «Frigideira», recusando a medicação de que careciam, desviando os remédios enviados pelas famílias dos deportados, participando diretamente de arma na mão, na repressão, insultando ou dirigindo frequentemente frases jocosas aos presos. É dele a famigerada frase «NÃO ESTOU AQUI PARA CURAR, MAS PARA ASSINAR CERTIDÕES DE OBITOS»!!!

Por outro lado, a enfermaria, inicialmente de madeira, era de dimensões reduzidas para albergar os muitos doentes, e, não apresentava condições de higiene, pois, o soalho nunca era lavado, o mau-cheiro era uma presença constante, e os ratos e baratas infestavam o local. Tudo isto para gáudio do médico Esmeraldo Pais da Prata, licenciado em «Assassínio».

Os presos padeciam de várias doenças sendo o paludismo a biliosa a tuberculose e as infeções intestinais os males mais frequentes no Campo de Concentração, para além do reumatismo, as avitaminoses com os casos beribéri, escorbuto e xeroftalmia, anemia palustre e doenças hepáticas e gástricas.

No total faleceram no Campo de Concentração 37 mortos: 34 portugueses, 2 guineenses e 1 angolano. De todas as enfermidades, a biliosa, provocada pela picada do mosquito, foi a que mais vida ceifou no Tarrafal.

A despeito dos medicamentos sonegados, ou da proibição de ferver a água, os presos conseguiram resistir, por meio de uma rede de solidariedade entre eles. Com efeito, ferviam a água às escondidas, ou com ferramentas improvisadas, construíram filtros de pedra vulcânica e porosa, de modo a poder limpar um pouco a água que consumiam. Igualmente organizaram a distribuição comunitária de medicamentos e outros parcos recursos, recebidos das famílias e das organizações de solidariedade.

A chegada do preso Manuel Baptista dos Reis, um médico, que era auxiliado por Virgílio de Sousa, um enfermeiro, foi decisiva para que o saldo da mortandade, não registasse uma cifra ainda maior.

Date

02 fevereiro 2018

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Museu da Resistência